Tuesday, May 27, 2008

Metafísica de Ponta

Não podia deixar que este mês acabasse sem responder, moi même, a essas dúvidas essenciais que todos os dias os media (ou aquilo em que eles se tornaram) nos propõem:
*"Onde é que você estava no dia 25 de Abril de 1974?"
Dentro da barriga da minha mãe, com toda a tranquilidade. Devia ter à volta de 4 meses (16 a 20 semanas), o que faz de mim, penso, já um feto, e não um embrião. No entanto, para baralhar os apologistas pro-life and pro-choice, não me lembro do ambiente, das calças à boca de sino ou mesmo da Grândola Vila Morena (in útero, isto é). Ou seja, biopsicofisiologicamente, não posso afirmar se já possuia critérios para ser "viva" ou não, perante os puristas da causa.
*"Onde é que você estava no Maio de 1968?"
Ora esta ainda é pior. Onde está quem ainda não nasceu, quem ainda não foi concebido? Será que está, ou não está? Será que é, ou não é? Ser ou não ser... Estaria noutra encarnação? Também não posso responder. A cosmogonia suplanta-me. Basicamente, até agora, não estive em lado nenhum histórico, ou de interesse.
*"Onde é que você estava em Maio de 1998, quando foi inaugurada a Expo 98?"
Finalmente! Concretamente, acho que chovia quando a Expo abriu, mas também andei por lá, e tinha um autocolante dos golfinhos no carro, e tenho um Passaporte ultra-carimbado, e vi os Pavilhões temáticos todos, e sofri nas bichas, e vi os bebés do anúncio, coitadinhos, dentro de água, e dei um salto negativo, e visitei a Sagres e a D.Fernando e Glória. E andei enamorada por Portugal. Pedrada com a pedalada de Portugal. Podia andar-se pelas ruas de Lisboa limpa e sem buracos até às tantas, e ver polícias e turistas a serem simpáticos. Embriagada com um feel good que não senti mais desde aí.
Parece que foi uma espécie de mergulho no futuro.
Analyze this.

Tuesday, May 06, 2008

razões para amuar (1)

É um bocado como entrar pela floresta adentro para tentar isolar uma folha, mas há que ser criativo. Escolher alvos, arranjar dardos, fazer uma sessão mental de paintball, sonhar com vírus informáticos ( e outros pequenos crimes entre amigos). Vamos declarar pequenas fatwa às coisas irritantes que nos fazem amuar.
(Amanhã este blog estará na listas dos 10 mais procurados do FBI por causa da palavra islâmica.)
Amuo nº1: O anúncio da Galp para a nossa selecção
Quem foi o maravilhoso publicitário com uma mente pouco subliminar que decidiu por uma data de gente a empurrar o autocarro da selecção? Tá doido?
Obviamente que enquanto a petrolífera se rega em maravilhosos $$$, não só à conta do que chupa do nosso tutano de consumidores, mas também dalguns snifes ganhadores para as bandas do Brasil e Angola, desleixou um claro erro de marketing.
Nós, os contribuintes que já não temos guito para o petróleo nem qualquer dia para o trigo, a servir literalmente de biocombustível para uma selecção de prodígios que não pagam IRS, quando se estampam em Lisboa é sempre em carros de alta cilindrada, que vão passar férias ao Dubai? Nós, a empurrar aquilo? Senhores!
Ok, a gasolina que eu meto no carro geralmente até é da Galp, embora nunca tenha sentido nenhuma energia positiva. E não é por causa do anúncio que eu, miseravelmente, vou iniciar uma campanha de embargo, protesto e retaliação. Basicamente, não vou fazer nada. Mas cada vez que passar o anúncio vou amuar, e implicar umas duas ou três vezes. E sabe tão bem.
O que faz falta é amuar a malta, o que faz falta...

Sunday, May 04, 2008

Dia da mãe

De ontem para hoje sonhei com a minha mãe. Mais precisamente com o funeral da minha mãe. Estávamos num lago, numa paisagem misto Canadá e Alasca, no inverno, mas o lago não estava gelado, porque nisto dos sonhos nada obedece às leis naturais.

Estava tudo branco e frio, mas estava sol. E toda a gente se esforçava por tentar colocar estrelas bem no centro do lago, sem se molhar muito. E cada vez que alguém se esforçava muito por conseguir levar mais longe a sua estrela eu chorava ainda mais copiosamente.

O funeral da minha mãe foi muito triste. Foi muito triste porque eu fiquei sem mãe, o meu pai sem mulher, o meu avô sem filha, o meu tio sem irmã, a minha prima sem tia e muita gente ficou sem uma amiga.

Foi num dia quente e com muito sol, não nevava nem nada, foi muita gente, e eu senti que a minha mãe era mesmo especial porque estava toda a gente com o mesmo ar que eu, de órfã.

O meu sonho de ontem expressa isso, o quanto a minha mãe era amada e como a expressão desse amor foi muito importante para mim naquele domingo. Tanto que ainda hoje sonho com os amigos da minha mãe quase a afogarem-se para lhe entregarem estrelas.

Não percebo porquê estrelas, e confesso que até acho tudo muito, muito piroso e estou zangada com o meu inconsciente por ser tão Kitsch, e principalmente por continuar a atormentar-me durante a noite.

Custa muito chorar em sonhos a noite inteira. Custa muito viver sem mamãe.

O sonho não foi causado por algum ressentimento com o dia da mãe, porque não é o primeiro sonho e aposto que não será o último, mas são sempre dolorosos. Quanto mais não seja ao acordar. Também nunca se festejou essas coisas cá em casa. Foi mero acaso. Mas curioso.

Estou amuada porque é chato, muito chato ser-se crescido, principalmente meio coxo, meio órfão.


PS:
E no fim, no fim, lá pelo resto do mundo muitos meninos nascem para morrer ou para ver os pais morrerem. E se em vez do dia da mãe do pai e dos avós e das prendas que se compram não se faz qualquer coisa de útil? Como desligar um interruptor ou ajudar alguém que precise? (tinha que ser, eu tenho dores de cabeça, mas há dores de cabeça muito, muito piores que as minhas!)